Entrevista com o Enólogo Vasco Rosa Santos do Monte da Ravasqueira

EM ENTREVISTA AO WINELICIOUS, O ENÓLOGO VASCO ROSA SANTOS, UM DOS RESPONSÁVEIS PELOS VINHOS DO MONTE DA RAVASQUEIRA, CONTA-NOS UM POUCO SOBRE A SUA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E A FILOSOFIA POR DETRÁS DOS VINHOS QUE CRIA, ASSIM COMO REVELA-NOS O SEU OLHAR ATENTO AO MUNDO DOS VINHOS. VALE A PENA CONFERIR!

Sabemos que é formado em Engenharia Agrónoma. Como surgiu a sua paixão pela enologia? O que mais lhe encanta no mundo dos vinhos?

Fui “empurrado” pelos meus irmãos mais velhos que trabalham hoje em dia como enólogos. A ideia de inicio nem era ser Enólogo, mas ter um percurso na industria transformadora e não obrigatoriamente na Enologia. Rapidamente comecei a fazer estágios de vindima ainda quando estava na faculdade e fascinou-me a ideia de criar algo que pudesse ser apreciado e criticado por muitos, algo que não existe em muitas das profissões. No fundo podemos considerar-nos artistas e essa subjetividade torna-se objetiva quando somos capazes de a explicar e sentir.

Criar vinhos é também uma maneira de se expressar? Acredita que os vinhos que elabora contam também um pouco sobre si?

O vinho tem sempre algo do criador, para o bem e para o mal. A ideia é não estragar a matéria prima e puxar pelo que acreditamos serem as principais características do local, dos solos e das vinhas com que trabalhamos, tendo isso bem definido na nossa cabeça e sem nos desviarmos.

Pode nos contar um pouco sobre a filosofia que está por trás dos vinhos que cria? 

O vinho não pode ser mais do que uma interpretação da realidade da região, da envolvência onde se trabalha. Como em tudo, há pessoas que interpretam melhor a realidade e por isso expressam as suas diferenças e qualidades de maneira a que quem prova sente a diferença e valoriza-a. É muito mais fácil de realçar esta diferença explicando os próprios vinhos e por isso é tão importante para nós a prova connosco, no nosso Enoturismo.

Como equilibra tradição e inovação? Como a conjugação destes dois ingredientes se reflete nos vinhos que elabora?

Somos uma equipa muito aberta à inovação. Talvez por termos tido oportunidades internacionais ou por estarmos menos presos a paradigmas passados. No entanto, há uma coisa que não podemos deixar de valorizar, as nossas castas. Essa é uma tradição que vamos querer manter e até mesmo aumentar, sempre em equilíbrio com a introdução de inovações tecnológicas que ajudam a potenciar a qualidade dos nossos produtos.

A sustentabilidade e responsabilidade ambiental é uma preocupação latente hoje em dia no mercado dos vinhos. Quais são as principais políticas e práticas que tem adoptado neste sentido no exercício do seu ofício?

Temos um pensamento que é transversal, quanto menos interventivos do ponto de vista de tratamentos e herbicidas, mais tipicidade os nossos vinhos terão. O objetivo tem sido reduzir ao máximo o uso de fitofarmacêuticos nas nossas vinhas e por isso, por exemplo, adquirimos um atomizador que aumenta a eficácia dos nossos tratamentos ao mesmo tempo que diminuiu a quantidade de fitofármacos utilizada nas vinhas. Os herbicidas é algo que erradicámos há dois anos das nossas vinhas e vamos querer manter assim.

Há alguma casta que tenha predileção ou que goste mais de trabalhar?

Não tenho predileção por nenhuma, mas tenho de confessar que uma me causou surpresa pela qualidade e pela consistência dos vinhos que deu origem, é a Touriga Franca. Era uma casta que não tinha tido muitas oportunidades de provar, mas a sua consistência surpreendeu-me pela positiva, provavelmente por estar plantada nos nossos solos de origem granítica, que não são muito ricos e que se expressa de forma sublime, por exemplo, no Vinha das Romãs em blend com Syrah.

Para si, qual é a importância do terroir na qualidade do produto final?

Com um mesmo terroir podem fazer-se dois vinhos muito diferentes. O que penso é que a interpretação desse terroir só pode dar origem a um vinho que expressa por completo as suas diferenças. Atingir este ponto ótimo é o nosso objetivo.


Apesar da pouca idade, já teve oportunidade de actuar em outros países, o que certamente lhe deu bagagem e uma visão ampla do mercado. Há algum país que ainda tenha vontade de trabalhar?

De facto, ter estagiado na Nova Zelândia foi muito importante, mas gostaria um dia de trabalhar na Califórnia pelo conhecimento que lá existe. Também no velho mundo como Bordéus ou a Borgonha teria interesse pelas escolhas claras que têm em relação à interpretação que fazem do terroir. Não se afastam nem um milímetro daquilo que acham ser a definição de um vinho de terroir e isso traz-lhes muita diferenciação e consistência.

Quais são as principais diferenças entre a vitivinicultura do velho e novo mundo para si?

As principais diferenças que eu julgo que se começam a esbater são, as formas como certos parâmetros nos guiam nas nossas escolhas e como olhamos para elas. O novo mundo é pragmático em relação á maximização de produção e estendem bem mais esse conceito quando comparado com o velho mundo, sempre apoiado num conhecimento prático e comprovado. Não há medo de experimentar coisas novas e constantemente questionar os métodos que estão instalados. Essa é para mim a maior diferença.

Consegue nos apontar algumas tendências para o mercado dos vinhos nos próximos anos?

Acredito que Portugal consolidará a sua identidade junto dos mercados globais. Está na rota para valorizar o produto português como consistente em qualidade e diferenciado. Termos uma identidade palpável e segura que nos projete para vender vinhos de qualidade excecional e com preço adequado, ou seja, mais elevado.

Qual o contributo que gostava deixar para a cultura do vinho? Pelo que gostava que seu trabalho fosse lembrado?

Aquilo que gostava era contribuir para a definição de estilo de uma casa como o Monte da Ravasqueira. Deixar uma marca de água que perdurasse durante muitos anos e se transformasse mais do que um projeto, numa referência para a região. É essa a minha busca.

Para finalizar, pode partilhar connosco uma sugestão de harmonização? Gostamos especialmente do “Vinha das Romãs”, pode nos dar uma dica de harmonização para este vinho?

Quando me perguntam sobre o Vinha das Romãs eu digo sempre para comprarem uma caixa ou duas e que o vão bebendo ao longo do tempo.Em Portugal temos tendência para beber o vinho jovem. São vinhos com uma capacidade de longevidade muito grande e que evolui muito bem em garrafa, tornando-se ainda melhor ao longo do tempo. É um vinho que vem sempre da mesma vinha e que não temos dúvidas que é já uma referência da Ravasqueira, mas que o será, mais ainda, no futuro. Eu sugeriria o cabrito no forno pois a elegância, os taninos firmes da Touriga Franca em lote com Syrah combinam bem com a doçura da cebola assada do cabrito e com os sabores intensos deste prato.

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