Hoje temos o prazer de partilhar aqui convosco uma breve entrevista ao presidente da CVR de Lisboa, Francisco Toscano Rico, que nos conta um pouco sobre as novidades da região. Confiram!

Qual o panorama atual desta região vitivinícola? Pode nos indicar o volume produzido anualmente e a extensão da área cultivada?

A Região Demarcada dos Vinhos de Lisboa atravessa um momento virtuoso, que se traduz numa crescente notoriedade e reconhecimento da qualidade dos seus vinhos, com reflexos diretos no aumento sustentado das vendas (+20% em 2018) e numa valorização dos preços médios (+6% em 2018). No último ano a Região colocou no mercado 47 milhões de garrafas, sendo que mais de 95% corresponde a Vinho Regional Lisboa e o restante a vinhos com Denominação de Origem Protegida. Dentro destas, a mais importante em volume é a DOP Alenquer com quase 1 milhão de garrafas. Em termos de capacidade produtiva, encontram-se certificados cerca de 10 mil hectares de vinha.

  • A região vitivinícola de Lisboa também tem presenciado um aumento no número de novos produtores?

Sim, surgem em média cerca de 10 novos produtores engarrafadores todos os anos, perfazendo atualmente cerca de 130. A entrada de novos operadores na Região é um sinal muito positivo da confiança que sentimos atualmente existir na Região.

O perfil dos novos operadores é muito diverso, assentindo-se à entrada de grandes empresas “multiregiões”, através da aquisição de quintas/adegas ou apenas engarrafando vinho adquirido a terceiros. Vemos também pequenos projetos a surgirem de novo, com uma qualidade e identidade muito bem conseguidas e que ajudam imenso a puxar pela notoriedade da Região.

  • Quais são as principais castas cultivadas nesta região?

A imagem de marca da Região é a qualidade na diversidade. Esta diversidade decorre dos diferentes “terroirs” que aqui existem, muito marcados pela maior ou menor proximidade atlântica, pela tipologia de solos existentes e pela topografia, com destaque para a serra do Montejunto que é o acidente orográfico mais relevante na região. Esta diversidade de condições de produção permite aos produtores optarem por um leque de variedades muito grande, que é sem dúvida um trunfo a explorar. É uma Região onde a combinação das castas nacionais, que predominam, com as castas internacionais, é particularmente feliz e bem conseguida.

Os brancos da região de Lisboa, são elaborados, sobretudo, a partir das castas Arinto (variedade rainha de Bucelas), Fernão-Pires, Vital, a que se juntam o Chardonnay, Sauvignon Blanc, Alvarinho, Verdelho ou Viognier. Nos tintos, as castas principais são o Castelão, Aragonez (Tinta Roriz), Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Touriga Franca, complementados, com o Cabernet Sauvignon, Syrah ou Merlot, entre outras.

  • No que consiste o “vinho leve”? Qual tem sido a receptividade do público para este tipo de vinho?

O vinho leve caracteriza-se pelo seu baixo teor alcoólico e por serem muito frescos e frutados e com boa acidez. É uma categoria de vinho que necessita de condições especiais para ser produzido com qualidade, não sendo replicado facilmente em todos os locais de produção. Por isso mesmo, o potencial produtivo nunca será muito grande. Estamos a falar atualmente de um mercado que ronda apenas cerca de 3 milhões de garrafas ano. É um vinho que tem um público fiel, com tendência a crescer, pois adapta-se muito bem a momentos de consumo especiais, seja um final de tarde de verão ou num cocktail, para além de acompanhar na perfeição a gastronomia muito típica da nossa região como pudemos constatar na última edição do Peixe em Lisboa. E vemos também os produtores a inovar neste segmento, surgindo novas referências, destacando o que para mim, pessoalmente, foi uma das grandes surpresas do último ano, um vinho branco leve com madeira, absolutamente irresistível.

  • Como a região de Lisboa tem se adaptado às exigências de um publico cada vez mais globalizado e com perfis tão distintos entre si?

O vinho difere de todos os outros alimentos porque dentro da garrafa, o que está em maior proporção, são emoções, e a tendência atual do mercado mostra que os consumidores procuram cada vez mais a novidade, o que vem de novo (novas emoções) sendo cada vez menos fiéis às marcas. Mas muitos não se afastam muito da sua zona de conforto, daquilo que conhecem ou que de alguma forma os marcou no passado.

Do lado dos produtores, vemos diferentes abordagens. Por um lado, uma prospeção muito precisa dos diferentes perfis de consumidores, que permite aos produtores escolherem, dentro do seu portfolio, os vinhos que melhor se adequam ao perfil de consumo de cada mercado, e esta é uma receita de sucesso incontornável. Em paralelo, vemos uma aposta clara na inovação e experimentação, colocando no mercado vinhos modernos e originais, incluindo a própria rotulagem, trabalho este que começa na própria vinha, na seleção de novas castas e novas combinações destas.  Uma linha de trabalho mais conservadora e muito sólida assenta na história, identidade e personalidade do local de produção e do estilo incutido pelo próprio produtor.

O trabalho que temos vindo a fazer em termos coletivos passa exatamente por dar a conhecer Lisboa, no mercado nacional e internacional, como região vinhateira produtora de grandes vinhos, onde a diversidade de estilos joga a favor desta procura de emoções e de novidades. A Ligação à cidade de Lisboa também tem sido explorada, pois queremos fazer de quem nos visita verdadeiros embaixadores dos nossos vinhos.

  • Quais são os principais mercados consumidores dos vinhos de Lisboa?

A Região exporta mais de 80% da sua produção, tendo como principais mercados de consumo, a América do Norte, o Reino Unido, os Países Escandinavos e o Brasil. A Ásia e a Rússia começam a ser destinos emergentes com importância crescente para os nossos produtores.

  • Como a CVR Lisboa tem colaborado na divulgação dos vinhos da região no mercado nacional e internacional? Quais são as ações promocionais de maior relevo?

A CVR tem como missão, entre outras atribuições, contribuir para a afirmação e notoriedade da marca Lisboa e das respetivas DOP. Este ano, ao nível internacional, vamos trazer à Região importadores e distribuidores da América do Norte, Suíça e Brasil, para que possam experienciar tudo o que esta Região tem para oferecer (vinho e território). Em paralelo, trabalhamos em estreita articulação com a Viniportugal, em especial na participação em grandes eventos e feiras internacionais, mas também nas salas de prova de Lisboa e Porto que são ótimas montras para dar a conhecer os nossos vinhos. No mercado nacional, atuamos a vários níveis, mas queremos acima de tudo estar junto dos consumidores e proporcionar-lhes a oportunidade de provarem e se deslumbrarem com os nossos vinhos, dando-nos também a conhecer como grande região vinhateira que somos. Isto faz-se na nossa nova loja de vinhos da CVR, no mercado da Ribeira, com mais de 300 referencias dos nossos produtores, também através da participação em eventos tradicionais que ocorrem um pouco por toda a Região, e em eventos vínicos e culturais, em especial na cidade de Lisboa. Em média, temos um evento a cada duas semanas e o feedback que vamos tendo tem sido fantástico. Para o futuro queremos começar a trabalhar de muito perto com o canal horeca, incluindo os sommeliers/escanções e, em paralelo, começar a trabalhar a fundo nas redes sociais.

  • Qual a expressão do enoturismo na região? Qual é o volume de enoturistas que visitam a região anualmente?

A prestigiada revista norte americana Wine Enthusiast elegeu a região vitivinícola de Lisboa como um dos melhores destinos do mundo a visitar. Na verdade, o enoturismo começa a ganhar balanço e significado económico na Região. Temos já um conjunto de operadores a trabalhar todo o ano e com enorme qualidade, o que nos deixa otimistas para o futuro. Mas ainda é necessário continuar a trabalhar na estruturação da oferta, que é algo que temos de abraçar. Esta estruturação passa por criar uma rede de entidades que trabalham de forma articulada e organizada para um objetivo comum. Esta rede deve ter como epicentro os produtores, e englobar os operadores turísticos, os hotéis, a restauração e todos aqueles que trabalham o tema do território. Acredito que a margem para o setor em Portugal crescer em valor passa muito pelo turismo e enoturismo. O programa de apoio Centro 2020 tem sido uma ferramenta importantíssima de apoio ao investimento da Região de Lisboa e das restantes CVR da zona centro do país, nesta vertente do enoturismo e da sua ligação aos territórios.

  • Para finalizar, a CVR Lisboa consegue nos apontar quais serão as principais tendências na região nos próximos tempos? Quais as novidades em vista?

Hoje, sentimos que há otimismo na região que se traduz em dinâmica e em investimento. Vão continuar a entrar novos produtores na Região, e isso é positivo, e vamos continuar a assistir ao lançamento de vinhos irreverentes, seja pela casta selecionada, seja pela combinação improvável destas, mas não se esgotam aqui as novidades. Ao nível da viticultura vemos um enorme dinamismo, aquilo que eu chamo de revolução silenciosa que está na base do sucesso da Região, alicerçada na reestruturação e novas plantações de vinha e também ao nível tecnológico e modelos de produção. Acredito que temos todas as condições para chegarmos a 2050 com a viticultura mais competitiva do país.

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