O Corpo de Deus e o nosso corpo. Em Portugal, a tradição popular chama à Festa do “Corpus Christi”, a Festa do Corpo de Deus. Uma solenidade da fé católica que reafirma a verdade sobre a presença real de Cristo no pão consagrado na celebração da Eucaristia. Mas, também é uma afirmação teológica e filosófica sobre a importância do corpo e da materialidade, “lugar” e meio onde se dá salvação e onde nos relacionamos uns com os outros. A corporalidade é o único meio de nos relacionarmos, mesmo em tempos virtuais como os nossos, a virtualidade só existe porque antes e durante a experiência virtual existe um corpo.

O corpo de cada um de nós é expressão e mediação para que exista uma verdadeira comunicação de si mesmo, do que pensa e do que apreende do mundo em seu redor.

Mas, no nosso entender, muitos são, nestes tempos os atropelos ao corpo humano, social e ambiental, mesmo no mundo da moda que devia trazer ao de cima. o melhor da estética humana:

  • ditadura do corpo perfeito, desde os anos 90 que temos muitos movimentos que tentam despegar a moda da “idolatria” de um corpo perfeito. Seja para o mulher seja para o homem. A ditadura do peso, do corpo tonificado e modelado, que nem sempre é sinal de corpo saudável. Vejamos as palavras do  filósofo Francês Gilles Lipovestsky, que nos remetem à reflexão sobre a vivência do corpo numa época em que práticas cirúrgicas como a redução de estômago, a lipoaspiração e outras intervenções corpóreas (dietas rigorosas e treinamentos exagerados), revelam a ditadura do padrão único de beleza presente em nossa sociedade . ” temos uma cultura que […] incita a satisfação imediata das necessidades, estimula a urgência dos prazeres, enaltece o florescimento pessoal, coloca no pedestal o bem estar do conforto e lazer. Consumir sem esperar; viajar; divertir-se; não renunciar a nada; as políticas do futuro radiante foram sucedidas pelo consumo como promessa de futuro eufórico”.
  • o mais recente caso de racismo nos USA, começou a revelar o que se passava no mundo da moda, seja na escolha de modelos em campanhas, marcas que não desejam outras “raças” que as brancas ou WASP (WhiteAngloSaxon and Protestant), nas lojas de roupa (onde os clientes negros são catalogados) ou mesmo em redações de revistas de moda importantes. A ditadura do corpo branco. Vejamos o que três designers negras neste artigo.
  • o mito da “eterna juventude”, todos têm de ser super jovens e magníficos, onde a idade é sinal de declínio. Onde se confunde SWAG com elegância, onde a grande maioria das campanhas são com gente nova quase adolescente mesmo que o target seja um escalão etário nada adolescente. A experiência e o conhecimento acabam sempre como em segundo lugar.
  • as “afrontas” ao corpo que é a sociedade, no sentido em que a moda, muitas marcas criam fracturas no corpo social ao explorar povos e países menos desenvolvidos na produção das suas coleções. Cada vez mais existe uma consciência alerta no mundo da moda, porém como esta pandemia mostrou muitas são as marcas e cadeias de moda que ainda mantêm esta verdadeira dependência económica e nada humana.  Leia-se o artigo aqui sobre o Bangladesh.
  • e, por fim, o impacto negativo da moda no “corpo” que é o nosso planeta Terra. Descobriram a palavra sustentável e sustentabilidade nos últimos anos, mas temos todos de dar mostras mais concretas desta opção. Entrou no discurso e no léxico mas ainda não entrou nos hábitos. Recomendamos a leitura do artigo sobre o fenómeno Greenwashing adoptado por algumas marcas “There are many ways that brands fall prey to greenwashing, however well-intentioned they may be. In some of the more insidious cases, brands might attempt to beguile consumers with misleading or unverifiable claims, if not altogether obfuscating their supply chain practices. But without a truly comprehensive approach to impact that includes environmental, labour and social change, the marketing itself rings hollow”.

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